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Biblioteca Municipal de Grândola
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terça-feira, 24 de maio de 2016
Natural da água
   "A fonte: ninho da água. Dali ela se constitui, emplumando-se ao modo de ser ave. Primeiro se pintainha, levantando o bico à chuva que desce.
   A água nasce de ser plantada? Ou de pedra que se converte, lavando o tempo em suas lágrimas? Ninguém nunca viu. O parto da água não tem testemunha: aparecemos sempre depois.
 
   Quem procure a fonte que escute primeiro seu chilreio fresco. Só depois rasteire os olhos entre a pedra e a erva. Deixe aí seu olhar pousado até que a alma, naquela dobrazinha onde ela se distrai de nós, se sinta molhada e mais que alagada: alaguada. Verá então como a água a si mesma se enche, abrindo as margens, soltando suas asas. Começa a viagem do rio sucessivo.
 
   O rio, caligrafia da água. Do alto, parece um sulco de metal transfluente. Limpo e solene. Mais perto se vê que, nas margens, se empoleira, contagiando-se de terra. O rio ora beija, ora morde a margem.
   Entre carícia e rasgão, se fazem seus incertos rumores de amante. Dentro dele se transportam ondulantes gazelas. Nesse tropel, o leito tornava-se savana azul, África liquefazendo sua carne térrea. O continente se oceanifica.
 
   Mas a água só despida está completa. Assim, da terra ela se distingue. A terra exige coberta, requer construção. Enquanto a água em sua própria pele se aconchega. Em tal nudez, nunca nenhum sulco se abriu, nenhuma ruga se desenhou. Os homens magoam o solo, cobrem de golpes o chão. Mas até agora nenhum foi capaz de ferir o rio e deixar cicatriz nele escrita.
 
   O rio da minha infância: sotaque da terra, pronúncia da própria vida. Esse rio transcorre não no mundo mas em mim. Como se eu fora natural da água e não de lugar terreno. Às vezes flui manso, diluindo os amargos recantos, consolando as arestas da minha idade. Outras, fundo e espesso, quase imitando o fogo. Então, em sua corrente me ensombro. E me duvido: afogar é morrer na água ou no fogo?
 
   Afinal, a fúria é breve. O rio simplesmente se lavava da morte, sacudindo destroços de mim que se espreguiçavam na torrente.
   A coragem do rio é o seu caminhar suicida para o mar. A bondade da água é o seu incansável retorno ao regaço da vida."
 
Mia Couto, in "Cronicando"

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