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Biblioteca Municipal de Grândola
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terça-feira, 8 de novembro de 2016
A melhor maneira é a única boa
   "Pensando bem não sou escritor porque aquilo que faço não é escrever, é ouvir com mais força. Sento-me e espero até as vozes começarem. Andam aí à minha roda, mais fortes, mais ténues, mais distantes, mais próximas, falando sem som e no entanto dizendo, dizendo. O problema é escolher qual delas é a certa porque todas as outras mentem. às vezes leva semanas, meses a entender. Quase nunca se trata da mais nítida. Quase nunca, não: nunca se trata da mais nítida, nem da mais sedutora, nem da mais inteligente. Em geral apaga-se, recomeça, torna a apagar-se, distrai-se de mim e eu dela, tento encontrá-la entre as restantes, não consigo, consigo, não consigo, recomeço, descubro-a ao longe, julgo perceber
   - É esta
   desiludo-me
   Não é esta
   dado que aquilo que conta não faz sentido e no entanto existe qualquer coisa no sem sentido que me persegue, puxo-a para mim ou empurro-me para ela, princípio a experimentá-la devagarinho, uma palavra dispersa, uma segunda palavra ao acaso, uma frase inteira, as vozes que sobejam esforçam-se por desviar-me
   - Que interesse tem isso?
   - A que te leva esse discurso?
   - Estás enganado
entregam-me personagens, episódios, histórias e quero lá saber de personagens, episódios, histórias, isso é para romances e eu cago nos romances, quero um fio que me conduza ao centro da vida e trazer ao de cima tudo o que existe lá dentro, quero o coração do mundo, não quero entreter os que compram, não quero diverti-los, não quero divertir-me, quero o que mora no interior do interior, onde estão as pessoas e a gente com elas, transformar em letras o que não tem letra nenhuma, quero seguir um passinho leve num corredor que há-de tornar-se passinho se eu continuar com ele, que há-de ganhar carne e olhos e levar-me consigo, quero respirar com ele, quero que fiquemos juntos, quero que o passinho seja o meu passinho e o corredor o meu corredor, que a carne e os olhos se tornem a  minha carne e os meus olhos, quero este livro que ainda não começou mas à força de teimosia e orgulho e paciência se tornará meu, sem o escrever é claro, já não caio em armadilhas dessas, deixando-o sair como a água que se derrama a achar o seu percurso nas falhas do sobrado e não é o meu livro visto que nenhum livro com o meu nome me pertence, os livros deviam trazer o nome do leitor, não do autor, na capa, é o leitor que lhe dá sentido à medida que lê, é ao leitor que a voz pertence e não só a voz, a carne e os olhos e o corredor e o passo e o leitor está sozinho e é imenso, o leitor contém em si o mundo inteiro desde o princípio do mundo, e o seu passado e o seu presente e o seu futuro e escuta-se a si mesmo e sente o peso de cada víscera, de cada célula, de cada íntimo rumor, o leitor não pára de crescer, já não precisa do livro nem de mim e ao acabar o livro começa, e ao guardar o livro na estante o livro continua e o leitor continua com ele, cada célula divide-se em milhares de células e o leitor é muitos, e o leitor deixa de ler porque não está a ler, mesmo que pense que está a ler não está a ler nem isto, tem todas as idades ao mesmo tempo e todos os tempos da sua vida embora o livro esteja fechado em qualquer ponto da casa e o leitor não necessite dele para continuar com ele e agora vêm-me à cabeça as sementinhas sem peso que no verão de quando éramos pequenos entravam pela janela, tornavam a sair, desapareciam e apesar de desaparecidas permaneciam connosco trazendo pela mão recordações e esperanças e alguém que cantava
   (que mulher?)
   junto ao tanque da roupa uma melodia
   (às vezes nem melodia: duas ou três notas apenas)
   que apenas ouviremos quando a noite descer e as sombras que nos rodeiam pensarem
   (mais do que pensarem: terão a certeza, elas e o médico e o senhor dos caixões)
   que não ouvimos nada."
 
António Lobo Antunes, in "Quarto livro de crónicas"
   

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