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Sono

     "Há dezassete dias que não durmo.      Atenção, não estou a falar de insónia. Sei o que isso é, a insónia, até porque quando andava a estudar na universidade passei por uma experiência do género e tive uma espécie de insónia. Digo uma experiência do género porque não tenho a certeza de que os sintomas correspondessem ao que se costuma chamar insónia. Talvez um médico pudesse ter tirado a questão a limpo, mas a verdade é que não procurei ajuda a esse nível. No fundo, sabia que não ia adiantar. Nem sequer se pode dizer que tivesse um motivo concreto para pensar nisso, chamem-lhe intuição feminina, se quiserem. Como tal, não referi o episódio a pessoas da família nem aos meus amigos, até porque eles me teriam aconselhado logo a procurar ajuda junto de um especialista.      Na altura, aquela «espécie de insónia» durou um mês inteiro. Durante esse tempo todo, nunca consegui ter uma noite de sono decente. Chegava a hora de ir para a c...

Nenhuma vida

Capítulo 1: Alentejo, antes de Abril.Caimão.Lela  "Alcides Caimão Proença era um típico grande agrário, soberbo, magnânimo na crueldade, que enviuvara cedo, entregando a sua filha única a uma ama, para que a criasse como menina rica, com muitos cuidados e carinhos.      Ele, imperioso e brutal como era, não se coibia de desflorar as filhas dos seus criados da lavoura. Até violou por várias vezes um rapazito autista, de grandes olhos assustados, que vagueava pela calçada do monte , arrastando a sua miséria, trincando côdeas que lhe davam, filho de uma prostituta e de um cigano vadio.      Lela, a filha do riquíssimo lavrador, crescia entretanto, quase à solta, e aprendia as primeiras letras com uma professora particular, que ia lá ao monte dar-lhe lições. Corria desatinadamente pelos brejos e outeiros floridos da herdade na Primavera, de cabelos ao vento, bebendo os cheiros da terra e do jasmim, que embalsamavam o ar.      Ado...