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Adoro transportes públicos

"Ontem, andei de autocarro. Já não o fazia há algum tempo e já nem me lembrava do quanto adoro transportes públicos. Adoro toda a experiência que me proporcionam. Adoro a forma como ficamos todos como sardinhas enlatadas, e as conservas estão na moda e é bom apostar no que é tipicamente português. Adoro pessoas de braço levantado com o sovaco a dez centímetros da minha cara; faz-me queixar menos do fumo e da poluição na Avenida da Liberdade. Adoro o facto de não chegarem a horas, porque me faz ter tempo para acabar de me pentear e fazer a barba. Gosto das conversas sobre as mensagens que o gajo lá da escola mandou e o que será que ele quer dizer com isso. É bom ver miúdas de doze anos a saber usar tecnologia e preocupadas com o significado das coisas. Gosto das velhas que olham fixamente e sustêm a respiração para ouvir as conversas. Assim melhoram a capacidade pulmonar e podem participar nas Olimpíadas seniores, na categoria de apneia. É bom ver pessoas activas na terceira i…

Pensar Portugal

"Pensar Portugal é pensá-lo no que ele é e não iludirmo-nos sobre o que ele é. Ora o que ele é é a inconsciência, um infantilismo orgânico, o repentismo, o desequilíbrio emotivo que vai da abjecção e lágrima fácil aos actos grandiosos e heróicos, a credulidade, o embasbacamento, a difícil assumpção da própria liberdade e a paralela e cómoda entrega do próprio destino às mãos dos outros, o mesquinho espírito de intriga, o entendimento e valorização de tudo numa dimensão curta, a zanga fácil e a reconciliação fácil como se tudo fossem rixas de família, a tendência para fazermos sempre da nossa vida um teatro, o berro, o espalhafato, a desinibição tumultuosa, o despudor com que exibimos facilmente o que devia ficar de portas adentro, a grosseria de um novo-rico sem riqueza, o egoísmo feroz e indiscreto balanceado com o altruísmo, se houver gente a ver ou a saber, a inautenticidade visível se queremos subir além de nós, a superficialidade vistosa, a improvisação de expediente, o …

Samba carinhoso

"Sidney Tartaruga gostava de telenovelas e de instrumentos de cordas, mas gostava mais de gostar de gostar de alguém. Num diário elaborava paixões que incluíam o desenho da casa onde tocaria violão e cantaria: «Meu coração não sei porquê / fica feliz quando te vê.»    O corpo de Sidney cresceu durante a adolescência como se o rapaz treinasse para o título de pesados e, aos 18 anos, poderia ser porteiro de discoteca. Sidney nem sequer fazia exercício, por isso estranhava a contundência da musculatura que lhe trazia mais desconforto que segurança diante das mulheres por quem se apaixonava - no mercado, na praia, no emprego como vigilante numa farmácia 24 horas. Fosse onde fosse, elas viam sempre a besta halterofilista em vez do amante suave capaz de cantar: «Os meus olhos ficam sorrindo / e pelas ruas vão-te seguindo.» Quem olhava para ele via um quebra-ossos profissional e não poderia supor que aquele colosso chorava a ouvir Maria Bethânia, que tocava cavaquinho como quem faz …

O Hitler queria ser pintor

"O meu irmão, quando era pequeno, dizia que queria ser médico da pica ou dragão com fogo, para assar castanhas. Uma criança que vive na Buraca e fantasia com agulhas teria tudo para correr mal, mas, felizmente, hoje em dia, está muito feliz e conseguiu juntar o melhor dos dois mundos: vende castanhas no Rossio, para sustentar o vício que tem na heroína. Estou a brincar. Antes fosse. Infelizmente é designer. É quase a mesma coisa, mas com menos saídas profissionais. O que leva uma criança a deixar de querer ser dragão com fogo e assador de castanhas para ser designer? A criatividade que se perde em menos de vinte anos... O mundo faz-nos isto. Temos sonhos e arrumamo-los no fundo da gaveta juntamente com as recordações de amores passados. Ficam ali. Não gostamos de os deitar fora, mas também nunca mais lhes vamos mexer.    Pensei nisso porque dei por mim a perguntar se a arte pode salvar o mundo. Não por achar que é a mais importante das áreas e a que devemos valorizar mais, ma…

De fato e gravata

"Anda tanta boa gente preocupada com o futuro da humanidade, ameaçado pelo aquecimento global, com projetos, reuniões ao mais alto nível e manifestações militantes para diminuir o efeito de estufa, encontrar energias renováveis e não poluentes, denunciando os que não cumprem certas decisões de Quioto, etc., etc., aceitando os mais radicais apenas a bicicleta como meio de locomoção para se diminuir o número de carros que atiram para os ares tantos fumos e calores e nós nem reparamos nos hábitos mais comuns que temos (ou nas nossas mais encravadas manias, como queiram dizer) que contribuem também para esse efeito pernicioso sobre o meio ambiente. Parecem (e são) coisas banais, mas entretanto elas contribuem com o seu pequeno quinhão para a futura miséria do planeta.    Exemplo desses hábitos ou manias é o de se usar fato e gravata, por vezes colete mesmo, nos climas mais tórridos do mundo. Um calor de morrer, humidade no máximo, e lá andamos nós de pescoço apertado a escorrer s…

O que sempre soube acerca das mulheres mas ainda assim tive de perguntar

"Tratam-nos mal mas querem que as tratemos bem. Apaixonam-se por serial-killers e depois queixam-se de que nem um postalinho. Escrevem que se desunham. Fingem acreditar nas nossas mentiras desde que tenhamos graça a pregá-las. Aceitam-nos e toleram-nos porque se acham  superiores. São superiores. Não têm o gene da violência, embora seja melhor não as provocarmos. Perdoam facilmente mas nunca esquecem. Bebem cicuta ao pequeno-almoço e destilam mel ao jantar. Têm uma capacidade de entrega que até dói. São óptimas mães até que os filhos fazem dez anos, depois perdem o norte. Pelam-se por jogos eróticos mas com o sexo já depende. Têm dias. Têm noites. Conseguem ser tão calculistas e maldosas como qualquer homem, só que com muito mais nível. Inventaram o telemóvel ao volante. São corajosas e quando se lhes mete uma coisa na cabeça levam tudo à frente. Fazem-se de parvas porque o seguro morreu de velho e estão muito escaldadas. Fazem-se de inocentes e (milagre!) por esse acto de vo…

Até à próxima

QUANDO, HÁ MUITOS ANOS, comecei a escrever para os jornais, um velho e sábio jornalista disse-me: ESCREVE SEMPRE A TUA PRÓXIMA CRÓNICA COMO SE FOSSE A ÚLTIMA.    Na altura fiquei um pouco perplexo. Com o tempo compreendi o aviso: escreve sempre a tua próxima crónica como se fosse a última, porque    - o amanhã é precário;    - a tua mulher pode usar o rolo da máquina de escrever para estender a massa;    - o teu maior inimigo pode não te dar tempo a que faças outra;    - pode sair um decreto que estipule: «Quem não escrever a sua próxima crónica como se fosse a última não tem direito a remuneração porque estão todos obrigados a produzir o esforço máximo»;    - podem roubar-te a esferográfica;    - pode dar-te um vazio na cabeça;    - pode a amnésia ocorrer na citada;    - pode o invejoso revelar-se: «Ele escreveu realmente esta crónica como se fosse a última. Não é possível escreverem-se mais asneiras»;    - pode a tua mulher pôr outra vez o rolo na máquina de escrever, depois de est…

Crónica Satânica

"Um tipo absolutamente anticlerical, particularmente contra a Igreja Católica. Anarquista pacífico, só de palavras. O primeiro filho nasceu e aos três meses pareceu apresentar no seu sorriso de bebé um rictus satânico. O feliz pai resolveu então ter uma atitude forte, de acordo com as suas convicções profundas. Pensavam chamar Pedro à criança, mas o progenitor desistiu imediatamente. O filho tinha de se chamar Satanás. A dificuldade foi a conservadora, no momento do registo. Que tal nome não podia ser dado. Argumento do pai: os nomes da Bíblia são aconselhados, são ou não? Eram.    Então, Satanás aparece mencionado na Bíblia centenas de vezes, é portanto um nome bíblico. Não podiam impedi-lo de registar assim o filho. A conservadora não tinha grande formação nem prática, provavelmente ainda não beneficiada pelas viagens de troca de experiência em que o país era pródigo, ficando sem argumentos legais perante o insólito. Mas já viu as consequências futuras de usar tal nome, que…

Devolvam-me à Terra!

"Descobri que, afinal, odeio afastar-me de Portugal. O problema não é tanto as saudades de casa e dos nossos confortos de alma - o cozida à portuguesa, os jornais do fim-de-semana, o futebol ao domingo e A Bola à segunda-feira - mas talvez antes o facto de me afastar da Pátria pelo ar. O que me angustia é ver desaparecer o nosso torrãozinho de terra, tão pequeno e tão indefeso lá em baixo, enquanto eu, cozidinho de terror, desapareço no meio de uma nuvem, o meu destino, os anos perdidos e os que ainda tenho a haver, tudo, irremediavelmente tudo, suspenso dessa coisa a que João Cabral Melo Neto chamou «um prodígio» que, quando «caí subitamente, me transforma em notícia». Nessas alturas, mesmo antes de os primeiros poços de ar remeterem a um absoluto silêncio aterrorizado, apetece-me sempre ir ao cockpit e dizer ao comandante: «Não se assuste V. Exa., que isto não é um assalto, é apenas um pequeno desvio. Sucede que houve aqui um tremendo equívoco: eu convencido de ir entrar a …

Quem tem medo dos livros?

"Nesta era da Internet e das redes virtuais, em que toda a gente pode ter acesso a informações diversas e estar sempre ao corrente das novidades, julgava que já não haveria tanto lugar para os livros, o que me preocupava obviamente, pois eles são importantes para mim, em todos os aspetos. No entanto, os últimos tempos trouxeram-me um grande alívio, embora pelas piores razões. Afinal ainda há gente que treme por causa de um livro. E voltei atrás no tempo.    Quando os militares deram o golpe de Estado no Brasil em 1964 para apearem do poder o democraticamente eleito João Goulart, abateu-se uma caça ao livro dito subversivo como há muito tempo não se via naquele país. Dois eram os mais visados pelos facínoras que entravam pelas casas dos suspeitos de esquerdismo. Um, Os Miseráveis de Victor Hugo, andando as secretas (pois eram várias, para umas apagarem o rasto das outras) à procura do perigoso escritor que tinha ousado descrever a gente pobre que morava nalguma favela. Alguém …

A VELHA ESPERANÇA MORREU SENTADA

"Os muros fazem os ladrões. A Velha Esperança ensinou-me isto - sem jamais ter lido Bakunine -, na mesma tarde em que me contou a autêntica história do soba Mutu-ya-Kevela. Ensinou-me muitas outras pequenas verdades, tão expostas, tão evidentes, que quase ninguém as vê. «Este país», disse-me, «é como um embondeiro: tem as raízes para o céu e as folhas debaixo do chão». Dava exemplos: «Queres ver como está tudo trocado? Os brancos chamam-se Pepetela, Ndunduma, Chassanha. Os pretos chamam-se Agostinho Neto, José Eduardo dos Santos, Mendes de Carvalho, Jorge Valentim».    São coisas de que me lembro às vezes, com um sorriso, quando é suposto não ter de me lembrar de nada. Lembro-me dela, outra vez, agora que é demasiado tarde. Soube há pouco que a velha Esperança morreu em Luanda, sentada na mesma cadeira de verga onde eu costumava encontra-la, possivelmente diante do mesmo crepúsculo profundo e irremediável. Ela achava que não morreria nunca.    Foi em 1992. Esperança Job Sapal…

História sem palavras

"Desço a rua, entro no metropolitano, estendo à menina muda as moedas necessárias, aceito o rectangulozinho que ela me fornece em troca, desço a escada, espero, paciente, que se aproxime o olho mágico da carruagem subterrânea. Ela chega, para, parte. Lá dentro, o silêncio do mar encapelado, isto é, o de toda aquela ferragem barulhenta, som de não dizer nada. Na minha paragem saio, subo as escadas do formigueiro ou do túnel de toupeiras por onde andei. E sigo pela rua fora - outra rua -, entro numa loja. De cesto metálico na mão (estamos na era do metal) escolho caixas, latas e latinhas, sacos. Tudo aquilo é bonito, bem arranjado, atraente, higiénico, impessoal. A menina da máquina registadora recebe a nota, dá-me o troco. Ausente, abstracta. Verá sequer as caras que desfilam diante de si? Apetece-me dizer qualquer coisa, que o troco não está certo, por exemplo. Que me deu dinheiro a mais. Ou a menos. Não digo nada. As máquinas sabem o que fazem. As meninas das máquinas também…

A Idealização do Amor

"Eu estava a pensar na forma como se poderá entender o amor, à luz da minha formação. Da minha perspectiva, depende daquilo que o outro representa, se o outro é um prolongamento nosso, é uma parte nossa, como acontece muitas vezes, ou é uma idealização do eu de que falaria o Freud. No sentido psicanalítico poder-se-ia dizer que o amor corresponde ao eu ideal e, portanto, à procura de qualquer coisa de ideal que nós colocamos através de um mecanismo de identificação projectiva no outro.

Portanto, à luz de uma perspectiva científica, como é apesar de tudo a psicanalítica, o problema começa a pôr-se de uma forma um bocado diferente. Nesse sentido e na medida em que o objecto amado é sempre idealizado e nunca é um objectivo real, a gente, de facto, nunca se está a relacionar com pessoas reais, estamos sempre a relacionarmo-nos com pessoas ideias e com fantasmas. A gente vive, de facto, num mundo de fantasmas: os amigos são fantasmas que têm para nós determinada configuração, ou os …

O DOM DOS ESCRITORES

"Falar de coisas belas que resultam do nosso dom de escritores parece coisa de pedantes e gente vã. Platão e Aristóteles eram pessoas como outras quaisquer, rindo com os amigos e sofrendo com eles se algum mal sucedia. A parte menos séria da vida era a obra com que se divertiam. E se escreviam sobre política era como se propusessem as regras dum asilo de loucos.    O melhor dum escritor é ser negociável no entendimento, comum no conviver, justo no aconselhar, benigno no julgar e sempre aberto perante as glórias. É soberba esperar muito do que se faz por talento, porque se faz por gosto. E um gosto não é medida do trabalho humano. Este é, sobretudo, esforço e sacrifício e passo do destino que nos acabrunha. O escritor é hoje um modelo de ignorância, e não um trajecto de sabedoria. Mesmo quando se faz erudito, converte-se num mercado de bugigangas, com muitas coisas brilhantes que apregoar e poucas valiosas que oferecer. Também não é bom ser austero demais, nem culto, que pareç…

O "Centrum" de nenhum

"Dantes, só havia um Centrum. Era um multivitamínico para toda a gente.    Entretanto, o Centrum complicou-se. No estrangeiro, há Centruns mais sectários: pré-natal, para o coração e para dar energia. Os Centruns para jovens com 49 anos ou menos podem tomar-se como líquido ou em pastilhas mastigáveis, que não precisam de água. As flavorburst são as mais apetitosas, largando xarope de fruta falsa na nossa cavidade bucal antes de reverterem ao sabor-padrão de cartolina salivada.    Em Portugal, há um Centrum júnior para as crianças, sejam elas meninas ou meninos. Depois há um Centrum para as mulheres com menos de 50 anos e outro para as que têm mais de 50 anos. Idem para os homens.    Há ainda dois vestígios de tempos mais inocentes: há o Centrum simplesmente Centrum, que não precisa de saber mais nada acerca de si para vitaminá-lo e mineralizá-lo. Caso tenha passado a barreira (fictícia mas deprimente) dos 49 anos, ainda há o Centrum Select 50 plus, sem discriminação sexual.  …

Verão

«Só o verão vale a pena ser vivido», Rilke    "Vejo: caminhas até à borda da água e o reflexo da luz na água torna confusa a tua silhueta, como se fossem duas pessoas que caminhassem num só corpo. Mas quando mergulhas e desapareces dentro de água, as duas pessoas fundem-se numa só e tudo se torna nítido de repente. Sei o que sentes, agora. Posso fechar os olhos e sinto-o também: a leveza da água sobre os ombros, a consciência das coisas que tocas com as mãos, as pedras e a areia grossa do fundo. Os peixes que passam diante do teu olhar, a certeza de que a vida existe quando, por um instante, descemos a este mundo submerso que não é o nosso e depositamos o peso que trazemos do mundo que é o nosso e assim nos reconstruímos, porque a água tudo limpa.    Não vejo: fechou-se a marca da água que se abrira à tua entrada, um abismo líquido interpôs-se entre nós, um prenúncio de catástrofe manchou a luz sem sombras de um dia que julgávamos eterno. Posso ficar deitado a olhar um céu absolu…

Viagem através do Sol

"Uma criança sentou-se na tarde agreste e pintou o sol. A sala onde a criança estava, ficou iluminada e fresca. Depois, a criança misturou as tintas, a água, o sonho e, num grande cartão, lentamente, foi erguendo prados, lezírias, florestas, aves, flores inesperadas. Então, chamou a irmã que a um canto assistia à criação deste mundo original e disse: «Vamos fazer uma viagem!»    E entraram os dois com seus olhos e sua imaginação pela tela dentro, alheios ao espanto de quem os contemplava nesse itinerário súbito da tarde de frio.    Misteriosamente, trocavam palavras de silêncio, encontravam-se com anões, gigantes e animais estranhíssimos, metade bichos que, ora os assustavam, ora os desvaneciam.    A certa altura a menina disse:    - Vamos chamar a mamã?    E o menino respondeu:    - Não podemos. É muito alta. Não cabe nestes caminhos: ia pisar tudo e estes bichinhos ficavam tristes. Muito tristes.    A mãe, imóvel numa cadeira, ali mesmo à entrada desse lugar impenetrável e …

O PORTUGUÊS

"Prefere ser um rico desconhecido, a ser um herói pobre. É melhor do que parece. O homem português é dissimulado, e fez da inveja um discurso do bom senso e dos direitos humanos.    Mas é também um homem de paixões moderadas pela sensibilidade, o que faz dele um grande civilizado.    Gosta das mulheres, o que explica o estado de dependência em que as pretende manter. A dependência é uma motivação erótica.    É inovador mas tem pouco carácter, como é próprio dos superiormente inteligentes, tanto cientistas, como filósofos e criadores em geral.    Mente muito, e a verdade que se arroga é uma culpa inibida. Vemos que ele se mantém num estado primitivo quando defende a sua área de partido, de seita e de família, à custa de corrupções e de crimes, se for preciso.    Gosta do poder mas não da notoriedade. Não tem o sentido da eternidade, mas sim o prazer da liberdade imediata. Não é democrata; excepto se isso intimidar os seus adversários.    Não tem génio, tem habilidade.    É ima…

SOPHIA

SOPHIA - I    "Havia duas mulheres em Lisboa que me davam que pensar. Uma delas já há muito que deu um passo para além do seu próprio caminho, quero dizer que morreu. Lembro-me dela, com uma blusa de musselina rosa, quase bege, dessa cor química e perfeita que é inventada a partir da imaginação e não copiada da natureza. Uma cor tão doce e aristocrática tinha o dom de corrigir o orgulho do coração, uma virtude de rainha. Há mulheres que têm virtudes de rainha e por isso são mal compreendidas.    Sophia é também assim. Creio que é, não tenho a certeza. Um dia, eu disse, num autografo, parece-me que foi: «Nascemos para nos admirarmos e não para ser amigas uma da outra.» Admirar uma pessoa tem muito de ascético, é como vê-la sempre igual no seu pedestal ou no seu trono. O mundo passa por essa admiração como o vento passa pelas árvores; brandamente ou rugindo, a verdade é que a admiração não é mundo nem árvores, mas sim a musical forma do que é sublime.    Os versos não me dizem muit…

Isto

"Julgo que me tornei escritor porque em criança o meu pai me curava as gripes com sonetos em lugar de aspirinas: pela parte da boca que o cachimbo não ocupava saíam ao mesmo tempo fumaças e tercetos cujo efeito medicinal, somado às papas de linhaça da minha mãe, me mergulhavam a pouco e pouco numa espécie de coma rimado, do qual me não libertei totalmente visto que respondo aos polícias das multas em alexandrinos contados pelos dedos no capot do carro. Suponho que habita nos autuantes um crítico literário visto que se apressam a escrever os seus artigos de língua de fora, suando do boné na caligrafia de instrução primária difícil que caracteriza os académicos. Normalmente estes julgadores severos deslocam-se aos pares como os gansos selvagens, os cónegos e os irmãos siameses: existe o impiedoso que castiga, com voz de quem foi alimentado na infância a biberões de vinho tinto e o colega relações-públicas, de ressaca menos azeda, encarregado de explicar, numa amabilidade de mau…